O último dia de um condenado - Resenha

Le dernier jour d'un condamné - Victor Hugo

Editora: Estação Liberdade
Número de páginas: 156
ISBN: 9 788574 480664


Para entender o contexto histórico desse livro é preciso que retornemos à França do século XVIII. Nesse período, o meio de disciplina utilizado era o suplício. Este, por sua vez, caracteriza-se pela violência física incessante como meio de reconstruir a ordem violada. Logo, fura-se a língua dos blasfemadores, queimam-se os impuros, corta-se o punho daquele que matou - estes são apenas alguns dos exemplos de suplício que eram comuns naquela época. Outro atributo fundamental do suplício era a sua ostentação. Ora, se são necessárias penas severas é porque o exemplo deve ficar profundamente inscrito no coração dos homens. Ou seja, na cerimônia do suplício o personagem principal era o povo (cuja presença real e imediata é requerida para sua realização). 
Em suma, a exposição do condenado - que às vezes era submetido aos insultos e ataques do povo que estava ali como espectador - legitimava o poder do rei. Isto é, além de o suplício fazer parte de um ritual, nele estava embutido toda a economia do poder.
Mas, afinal, o que isso tem a ver com O último dia de um condenado? Ora, o livro nada mais é do que uma crítica feroz a esse meio de punição que perpetuou a vida do autor.  Victor Hugo, descreve a barbárie, a injustiça e a ineficácia dessa pena no decorrer do livro. Sendo assim, o autor torna-se um porta-voz da condição humana e de seus direitos.
O livro começa com um grupo de pessoas discutindo o abominável tema que o autor propôs a escrever. Naquela época, só se escrevia sobre histórias de cavalarias e os sucessos de seus personagens. Contudo, a partir do momento em que Victor Hugo passa a criticar e expor os sofrimentos físicos (e morais) de um condenado, era de esperar que obra causasse polêmica.

Mais adiante, o autor descreve as seis últimas semanas de um condenado à morte - desde o tribunal onde sua sentença foi declarada até a hora em que ele está diante da guilhotina. Nesse ínterim, observa-se todo o sofrimento moral que o condenado passa. A dor física torna-se quase inexistente, o que o angustia é a dor moral - e é nela que consistia a sua tortura maior. Sozinho, tortura-se com seus pensamentos, mas um em especial o destrói por dentro: a inescapável morte ao qual todos estamos condenados.
Victor Hugo afirma que este livro é dirigido a qualquer um que julgue. E ai está o brilhantismo de sua escrita: a obra nos torna mais humanos. Aquele ditado infeliz ''bandido bom é bandido morto'' não se aplica aqui. Apesar de ter sido escrito há muitos anos atrás, alude críticas atuais. Defensor da abolição da pena de morte, Victor Hugo engaja toda sua eloquência a serviço dessa causa. Livro impecável, que nos transforma moral e fisicamente.


Recomendações: Para entender melhor as críticas sociais do livro, sugiro que vocês leiam:
1. Vigiar e Punir - Michel Foucault
2. Da Divisão do Trabalho Social - Émile Durkheim
3. A república dos meninos: Juventude, Tráfico e Virtude. - Diogo Lyra.

Selfie com livro pode sim.