Raízes do Brasil - Resenha

Raízes do Brasil - Sérgio Buarque de Holanda

Editora: Companhia das Letras
Número de páginas:193
ISBN: 9 788571 644489



"A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro
(...)
Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia,
Estupendas usuras nos mercados. (...)”
Descreve o que era naquele tempo – Gregório de Matos


Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro intitulado Raízes do Brasil, se propôs a explicar como a cultura brasileira está intrinsecamente ligada às nações ibéricas que aqui chegaram e esforçaram-se para impor seus ideais. Por conseguinte, ao mostrar o legado que os países colonizadores – Portugal e Espanha – deixaram no Brasil, observa-se que muitos dos hábitos e costumes da época do Brasil Colônia são perpassados até hoje, dentre eles a ociosidade, mérito pessoal e a mentalidade patriarcal. Outros pontos relevantes no livro consistem na narrativa do escritor sobre o ápice e o declínio da sociedade senhorial, bem como as mudanças políticas oriundas do processo de urbanização do Brasil do século XIX.
Sérgio Buarque, no decorrer do livro, averigua até que ponto a tentativa de implantação da cultura européia no Brasil obteve êxito. Dessa forma, o autor define como características principais das nações ibéricas a sua individualidade e plasticidade. Ora, sem tais particularidades o português e o espanhol não alcançariam sucesso por essas terras.

Sendo assim, o autor também reconhece o mérito de Portugal na colonização do Brasil. Plasticidade, carência da moral do trabalho, adaptabilidade e espírito aventureiro são atributos que compõem o perfil de nossos colonizadores. E, tendo em vista que o português não detinha orgulho de sua raça – pois ele era próprio um mestiço – fora mais fácil a relação de proximidade com os povos de outras nações.
Posto isso, há de ressaltar que a ocupação do território brasileiro – por parte dos portugueses – se deu de modo desleixado e com certo abandono. Isto porque, a priori, os colonizadores ibéricos não vieram com intuito de povoar a terra, mas sim, buscavam ouro e outros meios de riqueza rápida.
À medida que os povos ibéricos foram de fixando no território brasileiro, era evidenciada a estrutura que impunham: base patriarcal, fortemente marcada pelo personalismo. A influência familiar no convívio social interferiu no Estado – onde este, por sua vez, só operava com os ditames do interesse senhorial. Logo, quem monopolizava a política da época eram os fazendeiros escravocratas e seus filhos. Observa-se que o Estado era, nesse contexto, apenas uma ampliação da comunidade doméstica. 

 
Todavia, uma série de fatores contribuiu para a ruptura da sociedade patriarcal. O primeiro deles foi a lei Eusébio de Queirós (1850) que proibia o tráfico negreiro. O cerne de toda a riqueza senhorial fundamentava-se no comércio e no uso da mão-de-obra escrava.
Outro ponto relevante no declínio da sociedade patriarcal constituiu-se na forte resistência à mudança que os senhores obtinham. Isto porque a tradição rural estava impregnada na mentalidade dessa sociedade.
Ademais, a intensificação do crédito bancário e a construção de meios de transportes modernos (como as estradas de ferro) também ajudaram a sucumbir a sociedade patriarcal. Sendo assim, a sociedade senhorial foi substituída e agora possui ocupações nitidamente citadinas – como atividades políticas, a burocracia e as profissões liberais. Contudo, toda essa gente que se deslocou para a cidade carrega consigo a mentalidade e os preconceitos típicos de uma sociedade cujas raízes estão no meio rural.
Essa transição de vida rural para vida urbana trouxe novos ideais: deixa-se de lado o valor atribuído a terra e preocupa-se mais com questões relacionadas ao intelecto, como a busca por um diploma de bacharel em Direito. Assim que o indivíduo adquirisse o diploma, teria cargos honoríficos e de prestígio a sua disposição.
Desse modo, não havia uma preocupação real com o saber, mas sim, um grande desejo por riqueza e reconhecimento. Trazendo ideais de uma realidade totalmente diferente da que se encontrava o Brasil àquela época, o positivismo e o liberalismo se firmaram aqui.
Sendo assim, Sérgio Buarque de Holanda afirma que a democracia sempre fora um mal entendido na sociedade brasileira. Isto por que o conhecimento importado da Europa favorecia apenas os interesses da elite local.
Em virtude disso, o autor apela para importância de se fazer uma revolução, exterminando, então, as raízes ibéricas ainda tão vivas no pensamento político-social da população brasileira. A Nossa Revolução adotaria o urbanismo e priorizaria as camadas menos favorecidas. Estas, por sua vez, teriam a capacidade de instaurar um novo sentido a vida política, dando lugar a tão almejada democracia efetiva.